Menu fechado

“Nós” e o Câncer

Por José Domingos Ruiz Filho*

Há 10 anos, ao fazer um exame médico de rotina, o médico me disse: – Você precisa consultar um pneumologista (especialista em pulmão), pois na radiografia apareceu um nódulo, no seu pulmão esquerdo. Tive um choque. É câncer? – perguntei. O técnico radiologista diz que sim, mas a consulta a um especialista é fundamental. Não sentia nenhuma dor. A tosse tinha sumido (ou diminuído muito) desde que tinha parado de fumar a 10 anos atrás. O nódulo era pequeno, mas “FEIO”. Para resumir, fiquei 4 anos fazendo exames periódicos, sem nenhum diagnóstico definitivo.

Apareceu na época um exame (PET) destinado a detectar qualquer tipo de câncer. O plano de saúde não cobria o custo (hoje já cobre), mas assim mesmo não tive dúvida em fazê-lo. O resultado: NEGATIVO. Fiquei muito aliviado. Logo após tive que fazer uma operação no pulso (síndrome do carpo). Minha mulher levou os meus exames (sangue etc…, inclusive o do pulmão) e o ortopedista, um renomado médico que já tinha me operado do joelho, alertou que o nódulo do pulmão persistia e era “FEIO“. Feio “é maligno”.

Fui então encaminhado a um cirurgião com especialidade pulmonar, para saber sua opinião. “- Se fosse você eu operava. É pequeno, mas tem aparência “FEIA”. Só uma biópsia poderá dar o diagnóstico preciso”. A operação (Loboctomia) é difícil e gera uma perda de parte do pulmão. Fiz. Deu positivo. Tirei metade do pulmão esquerdo. A biópsia final concluiu: adenocarcinoma moderadamente diferenciado (câncer) e o problema passou a ser o que viria depois.

Depois de 12 dias recebi “alta” do hospital, sem ainda saber qual o futuro. O câncer pulmonar, normalmente ocasionado pelo fumo, tem alto índice de mortalidade. Fui encaminhado a um “oncologista” (médico especialista em câncer) que solicitou os exames (inclusive os de sangue) para acompanhamento da situação. Em princípio, não precisava nem de quimioterapia, nem de radioterapia.

O tumor era pequeno, não acusava ter expandido para outras áreas, e a estratégia era acompanhar o resultado da cirurgia, e a mudança de hábitos se fez necessário. Passei a cuidar mais da minha saúde com uma alimentação mais saudável (muitas frutas, legumes, peixes, etc.) passei a beber mais água, e a praticar mais atividades físicas, principalmente a caminhada diária.

Periodicamente fiz revisão – a cada 3 meses, depois a cada 6 meses, depois uma vez por ano, durante cinco anos. Após 5 anos senti uma forte dor no local do corte da cirurgia e fiz outro exame (PET) para detectar se o câncer tinha voltado. Graças a Deus deu negativo. Mas, como é evidente para os que estão lendo meu depoimento, a “ansiedade” é inevitável. O câncer fica na memória. Mesmo depois de sumir do organismo o tumor continua a comprometer o nosso bem-estar. Sua sombra não vai embora.

Por isto, em todo o acontecer da doença, o atendimento psicológico é importantissimo, não só para a vítima do mal, mas como para sua familia. A ansiedade, o medo da recidiva acarreta significativas alterações no sistema imunológico que afeta não só os que lutam com a doença, mas como aqueles que já se dizem curados. E aí entrou a “Psico-Oncologia”, a aplicação da psicologia aos doentes de câncer. Não só a eles como a seus familiares e cuidadores como, aos agentes comunitários de saúde, que enfrentam as consequências da doença, diariamente.

Minha mulher, Vera, resolveu com outras amigas psicólogas e com uma parceria com a Dra. Maria Lúcia Ferreira, psico-oncologista e presidente da Associação Ciranda Viva de São Paulo criar, aqui em Porto Seguro, uma associação sem fins lucrativos, para tratar dos doentes de câncer, e seus familiares que suportam seus problemas, principalmente os pobres. Proporcionando o tratamento psicoterapêutico, reuniu psicólogos, fisioterapeuta, acumputurista, médicos, dentista, enfermeira, advogados, empresários, assistente social, nutricionista enfim, uma gama enorme de profissionais, que voluntariamente e sem qualquer retribuição financeira procuram minimizar a dor e o sofrimento, mesmo naqueles desenganados pela ciência médica – aliás, especialmente nestes casos é que a ajuda é mais necessária para uma sobrevida digna.

Não é válido empurrarmos apenas para o governo o trato de tão espinhosa questão. Cabe a nós, munícipes de Porto Seguro, darmos nossa participação (que não precisa ser financeira) para tão necessária caridade. Cada um, na sua profissão, sem necessitar contribuição financeira, pode e deve ajudar. Hoje fazendo parte do grupo de ex-paciente de câncer, adquiri uma boa qualidade de vida e sou muito feliz.

(*) José Domingos Ruiz Filho é ex-paciente de câncer.